No início, as nossas reuniões magnas chamavam-se simplesmente Encontros.
Muito antes de nos ter sido possível fundar a BAD (o direito de associação, como muitos outros na ditadura, era apenas uma miragem…) coube ao grupo de “Cadernos”, sobretudo a partir de Coimbra, com estratagemas quase maquiavélicos, unir os colegas e dar voz – naturalmente pouco audível – aos seus anseios e reivindicações profissionais. Basta reler aí alguns escritos dessa época para entender o que, mais ou menos explicitamente, constituía a problemática de então. A realização dos Encontros representou, nesse contexto, um grande avanço.
Quando o 1º se efectuou em Coimbra, em 1965, eu estava a fazer o Curso de Bibliotecário-Arquivista (segundo o plano de estudos de 1935!), mas gorou-se a normal pretensão de nele participar, porque a isso não fui autorizada, no último momento, pela minha entidade patronal de então.
Jurei a mim própria que era a última vez que tal aconteceria e, de facto, nunca mais faltei a uma dessas reuniões gerais: talvez também por isso, custa-me a entender os colegas que delas hoje se desinteressam, pois para mim continuam a ser uma conquista e uma forma de afirmação colectiva, para além de outras motivações profissionais, é claro!
Fiz depois parte da organização de vários Encontros e Congressos da BAD e nunca dei o tempo por mal empregado: superando os trabalhos e preocupações, recordo sobretudo momentos de partilha, aprendizagem, júbilo, camaradagem…
Especialmente o 4º Encontro, mais uma vez em Coimbra, nos finais de 73 - quando já se aproximava a Revolução – em que foi enfim possível fazer a 1ª assembleia fundacional da BAD. Seguiram-se ainda outros Encontros, bastante participados, em diversas cidades do país, dos quais para abreviar não me vou ocupar aqui, assim como de tantos colegas neles activamente envolvidos, muitos dos quais já nos deixaram. Passemos, pois, finalmente aos Congressos, de que gostaria de recordar pelo menos dois, por diferentes motivos.
O 1º, em 1985, sobre ”A informação em tempo de mudança” e realizado no Porto, com uma comissão organizadora “de luxo”, era eu Presidente da Direcção nacional, deixou a todos uma excelente memória, e nele se fez prova da vitalidade e prestígio de que a Associação já então gozava. Com um bom programa, grande participação, inclusive de colegas estrangeiros – muitos espanhóis e vários franceses, ingleses, americanos, noruegueses, etc. – foi alvo do interesse até dos poderes públicos. Isso é patente na mesa de abertura, onde, só a título de curiosidade, anotamos o Prof.Vilaverde Cabral, os Engs. João Cravinho e Valente de Oliveira, os Drs.Paulo Valada e o então Secretário de Estado Raul Junqueiro (que aí, nesse dia, assinou o protocolo que conduziu à tão desejada informatização da Biblioteca Nacional), o Reitor Prof. Oliveira Ramos e, ao meu lado esquerdo, entre outros, o Dr. Cal Brandão.
Não posso, por razões muito diferentes, deixar de recordar aqui o 4º Congresso, que em 1992 se realizou em Braga, no meio de um ambiente explosivo, que culminava semanas de reuniões de luta, com acções que mobilizaram um aguerrido colectivo de bibliotecários, unidos na defesa da rede de leitura pública e da entidade que a liderava. Não me posso esquecer que, à última hora, fomos surpreendidos por um despacho que proibia os muitos bibliotecários do Ministério da Cultura de, no seu congresso, abordar assuntos que não fossem estritamente técnicos…Voltávamos à velha “lei da rolha”.
Pode imaginar-se a revolta e o escândalo que isso suscitou! Prenunciando os amargos de boca que depois me trouxeram, durante uma década, as funções (para que conste, não remuneradas) de vice-presidente do Conselho Superior de Bibliotecas, estou ainda a ver-me – em representação inapelável daquele mesmo ministério – sentada ao lado do Presidente Mário Soares, a crivar-me de perguntas sobre a situação a todos os títulos lamentável que nos tinha sido criada. Com a habitual perspicácia rapidamente a compreendeu, não perdendo a oportunidade de, no discurso final da turbulenta sessão, a ter incisivamente criticado, afirmando ainda que, reconhecido bibliófilo, ele se via também como um de nós. Imagina-se a ovação!
Embora tenham teimosamente avançado com a ideia absurda e terceiromundista de fundir o IPLL com a BN, por um curto período aliás, foi entretanto possível dar continuidade ao Projecto da RNBP - objecto, até pelos mesmos, de posteriores e desvelados elogios - o qual hoje atravessa de novo momentos difíceis…
Essa e outras estórias estão ainda por fazer, e talvez por isso se perceba porque, entre tantas outras possíveis, preferi esta abordagem pessoal e dificilmente transmissível.
Maria José Moura
Janeiro, 2010
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